Com informações do Marília Noticia
A Justiça Federal determinou o afastamento, por 120 dias, do delegado da Polícia Federal José Navas Júnior, que atua em Marília. A medida faz parte de uma investigação conduzida pela própria Polícia Federal sobre supostos acessos irregulares a inquéritos e possível vazamento de informações sigilosas para pessoas investigadas em outras operações.

Dinheiro apreendido durante operação da PF
A decisão foi tomada pelo juiz Alexandre Sormani, da 1ª Vara Federal de Marília. Embora a Polícia Federal tenha solicitado a prisão preventiva do delegado, o magistrado entendeu que a medida não era necessária neste momento e optou pela aplicação de outras restrições.
Durante o período de afastamento, Navas não poderá exercer suas funções, entrar na unidade da PF onde trabalha ou em outras unidades relacionadas às investigações. Também teve os acessos aos sistemas internos da corporação bloqueados e deverá entregar a arma funcional e as insígnias.
O delegado ainda está proibido de manter contato com servidores da Polícia Federal. Para deixar Marília por período superior a oito dias, deverá informar previamente à Justiça seu local de permanência. Ele também não poderá sair do país e deverá entregar os passaportes brasileiro e espanhol, caso eles não sejam apreendidos durante as diligências.
A decisão estabelece ainda o comparecimento mensal à Justiça Federal. Não foi determinado o uso de tornozeleira eletrônica. Caso as medidas sejam descumpridas sem justificativa, a prisão preventiva poderá ser decretada.
## Investigação começou com denúncia anônima
A apuração teria começado após uma denúncia anônima que apontava um possível fornecimento de informações sigilosas a pessoas relacionadas a crimes de contrabando.
Segundo os elementos apresentados no processo, a Corregedoria-Geral da Polícia Federal identificou, em 2023, acessos realizados por Navas a um inquérito sobre fabricação clandestina de cigarros, embora ele não tivesse atuação formal no procedimento.
As suspeitas posteriormente foram ampliadas. A investigação identificou consultas feitas pelo delegado no sistema ePol, utilizado pela Polícia Federal para administrar inquéritos. Entre os procedimentos acessados estavam investigações conduzidas por diferentes unidades da corporação.
A decisão cita operações como Ilusão, Servi Fumi e Terra Limpa, além de investigações conduzidas em cidades de outros estados.
A Justiça ressalta, entretanto, que a presença desses inquéritos na investigação não significa que o delegado seja suspeito dos crimes investigados nessas operações. A apuração busca descobrir se ele utilizou indevidamente seu acesso funcional para obter informações e, eventualmente, repassá-las a terceiros.
## Movimentações financeiras são analisadas
Outro ponto importante da investigação envolve movimentações financeiras entre o delegado e o advogado e empresário Luís Gustavo Tenuta Araújo, que já manteve sociedade empresarial com Navas.
De acordo com os documentos analisados pela Justiça, Tenuta teria realizado 60 transferências para o delegado entre 2022 e 2025, totalizando aproximadamente R$ 770,8 mil.
A Polícia Federal tenta esclarecer se parte desses valores estaria relacionada ao eventual fornecimento de informações obtidas por meio dos sistemas da corporação.
Um dos episódios analisados envolve Alan Wladimir Bernardy. Conforme a investigação, Navas teria consultado repetidamente um inquérito no Rio Grande do Sul relacionado à apreensão de aproximadamente R$ 1,215 milhão em dinheiro.
Durante o período em que essas consultas teriam ocorrido, uma empresa relacionada a Bernardy transferiu R$ 197.280 para Tenuta. Posteriormente, entre maio e dezembro de 2023, Tenuta teria repassado cerca de R$ 189,6 mil ao delegado em 16 depósitos.
Outro caso analisado está ligado à Operação Terra Limpa e ao empresário José Amauri Bottura. Segundo a investigação, uma empresa pertencente ao empresário transferiu R$ 268 mil para Tenuta em janeiro de 2025. Pouco depois, o delegado teria recebido R$ 58,5 mil do empresário.
A Polícia Federal investiga se existe relação entre essas movimentações e consultas realizadas por Navas em procedimentos envolvendo Bottura.
A decisão judicial deixa claro que a hipótese de pagamentos em troca de informações ainda está sendo investigada e não representa uma condenação.
## Esposa do delegado também aparece na investigação
A advogada Ilka dos Santos Alvares, esposa de José Navas Júnior, também é mencionada na apuração.
Segundo os dados reunidos pela investigação, ela teria recebido aproximadamente R$ 134,5 mil em 101 transferências bancárias. Também foram identificadas movimentações superiores a R$ 1 milhão em suas contas.

Entre cédulas apreendidas em diligência da PF havia reais e dólares
A investigação busca esclarecer a origem e a natureza dessas movimentações. Os dados, contudo, não comprovam por si só a existência de recursos provenientes de atividades ilícitas.
A Justiça autorizou o acesso a dados telefônicos e telemáticos relacionados à advogada e a Tenuta, determinando que sejam preservadas as prerrogativas profissionais da advocacia.
## Sete pessoas são alvo de buscas
Além de José Navas Júnior e Luís Gustavo Tenuta Araújo, a Justiça autorizou mandados de busca e apreensão contra Alan Wladimir Bernardy, João Marcelo Grippa de Sousa, Thiago Grippa de Sousa, José Amauri Bottura e Paulo Alexandre Moitinho.
Moitinho também aparece na investigação por ter mantido anteriormente participação societária em uma empresa na qual Navas também teve participação.
De acordo com a decisão, o delegado teria realizado consultas sobre Moitinho no sistema da Polícia Federal. A investigação procura esclarecer se existe alguma conexão entre essa relação empresarial, as consultas realizadas e os demais fatos apurados.
A Justiça autorizou buscas contra os sete investigados.
## Bloqueio de patrimônio
Além do afastamento, foram determinadas medidas de natureza patrimonial.
Para José Navas Júnior, foi estabelecido bloqueio de bens e valores até o limite de **R$ 248.138,99**.
Para Luís Gustavo Tenuta Araújo, o limite determinado foi de **R$ 635.260**. O mesmo teto foi estabelecido para duas empresas relacionadas a ele.
A medida pode atingir dinheiro em contas, veículos, imóveis, investimentos e outros bens, respeitando os valores definidos pela Justiça.
Por enquanto, o bloqueio patrimonial não foi estendido aos demais investigados, porque o magistrado considerou que ainda não existem elementos suficientes para justificar essa medida contra eles.
## Prisão preventiva foi rejeitada
Apesar de considerar que existem indícios suficientes para justificar o avanço das investigações e a adoção de medidas cautelares, o juiz Alexandre Sormani decidiu não decretar a prisão preventiva do delegado.
Na avaliação do magistrado, o principal risco estaria relacionado ao acesso de Navas aos sistemas internos da Polícia Federal. Com o afastamento, o bloqueio das credenciais e a proibição de contato com outros servidores, a Justiça entendeu que seria possível reduzir esse risco sem determinar a prisão.
O afastamento foi estabelecido inicialmente por 120 dias e poderá ser reavaliado conforme o andamento da investigação.
A Corregedoria da Polícia Federal também deverá avaliar possíveis medidas disciplinares relacionadas ao caso.
Até o momento, a investigação permanece em andamento. A decisão judicial não representa condenação dos investigados e as suspeitas ainda precisam ser apuradas no decorrer do processo.
O Marília Notícia informou que tentou contato com os principais envolvidos, mas não recebeu manifestação até a publicação da reportagem. O espaço permanece aberto para eventuais esclarecimentos das defesas.
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